{"id":747,"date":"2025-04-04T15:05:23","date_gmt":"2025-04-04T15:05:23","guid":{"rendered":"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/?p=747"},"modified":"2025-11-21T13:40:30","modified_gmt":"2025-11-21T13:40:30","slug":"ruas-que-contam-historias-arquiteturas-de-participacao-dos-moradores-da-lomba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/?p=747","title":{"rendered":"Ruas que contam hist\u00f3rias: arquiteturas de participa\u00e7\u00e3o dos moradores da Lomba"},"content":{"rendered":"\n<div style=\"height:35px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family has-medium-font-size\"><strong>De:<\/strong> Francisca Weiner, Joana Cruz.                                    <\/p>\n\n\n\n<p class=\"is-style-default has-vollkorn-font-family has-medium-font-size\" style=\"text-decoration:underline\">Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/hdl.handle.net\/10216\/165354\">https:\/\/hdl.handle.net\/10216\/165354<\/a> <\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:35px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"is-style-default has-vollkorn-font-family has-medium-font-size\" style=\"text-decoration:underline\"><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\"><strong>Resumo:<\/strong> O desenvolvimento urbano \u00e9 muito mais do que a constru\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios e infraestruturas. \u00c9 um reflexo das estruturas sociais que moldam a sociedade, \u00e9 um espelho das pol\u00edticas p\u00fablicas, \u00e9 uma reprodu\u00e7\u00e3o de quem nela habita. Desde o final do s\u00e9culo XVIII, com a expans\u00e3o industrial em Portugal, testemunhou-se um crescimento dr\u00e1stico da popula\u00e7\u00e3o que vinha do interior para as cidades, resultando na constru\u00e7\u00e3o em massa de habita\u00e7\u00f5es conhecidas como &#8220;ilhas&#8221;. Estas estruturas urbanas n\u00e3o representaram apenas solu\u00e7\u00f5es para um problema de habita\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m deram palco a rela\u00e7\u00f5es de poder, refletindo as desigualdades sociais existentes nos territ\u00f3rios, a par de uma monopoliza\u00e7\u00e3o no que diz respeito ao controlo do solo e ao planeamento urbano (Barbosa &amp; Lopes, 2021; Rodrigues, 1999).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Apesar de se come\u00e7arem a ver esfor\u00e7os para incluir os\/as habitantes nas decis\u00f5es que afetam o seu ambiente residencial, muitos\/as ainda se sentem sub-representados\/as, uma vez que os espa\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o n\u00e3o refletem a diversidade cultural e social das comunidades, deixando de lado as vozes mais importantes, as de quem habita. O presente artigo tem por base um estudo etnogr\u00e1fico feito no territ\u00f3rio da Lomba, na zona do Bonfim, desde outubro de 2022 at\u00e9 outubro de 2024. Visa analisar o impacto emocional, social e cultural que estas mudan\u00e7as t\u00eam sobre a vida das pessoas, emergindo da necessidade de uma reflex\u00e3o profunda que inclua as vozes dos\/as habitantes sobre a (re)constru\u00e7\u00e3o do seu ambiente residencial. Trazer estas vozes &#8211; e o territ\u00f3rio de seis \u201cilhas\u201d com um total de sessenta e tr\u00eas habita\u00e7\u00f5es que se encontram em processo de requalifica\u00e7\u00e3o &#8211; \u00e9 essencial para fazer cumprir Abril e garantir que a cidade \u00e9 essencialmente dos seus habitantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\"><strong>Palavras-chave<\/strong> (3-5)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Desenvolvimento Urbano; Ilhas; Participa\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria; Requalifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\"><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\"><\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading has-vollkorn-font-family\">INTRODU\u00c7\u00c3O<\/h1>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">O conceito de &#8220;direito \u00e0 cidade&#8221;, formulado por Henri Lefebvre (2012), refere-se ao direito das pessoas que habitam um territ\u00f3rio poderem participar na constru\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o da cidade, garantindo que o desenvolvimento urbano responde \u00e0s suas necessidades e aspira\u00e7\u00f5es, em vez de ser ditado por interesses econ\u00f4micos externos.O desenvolvimento urbano, enquanto processo complexo, vai al\u00e9m da constru\u00e7\u00e3o de infraestruturas e edif\u00edcios, refletindo as din\u00e2micas sociais, culturais e pol\u00edticas que moldam a sociedade. O caso das &#8220;ilhas&#8221; do Porto s\u00e3o um exemplo emblem\u00e1tico de como as press\u00f5es econ\u00f4micas e sociais moldaram o ambiente urbano de forma desigual. A sua expans\u00e3o reflete as pol\u00edticas p\u00fablicas da \u00e9poca, que favoreceram o controle do solo e do planejamento urbano por parte de uma elite dominante, relegando as classes trabalhadoras a \u00e1reas menos desej\u00e1veis da cidade (Barbosa &amp; Lopes, 2021). No contexto da industrializa\u00e7\u00e3o acelerada, constru\u00edram-se, no Porto, as conhecidas &#8220;ilhas&#8221; &#8211; habita\u00e7\u00f5es em massa &#8211; que procuraram acomodar os trabalhadores que migravam do campo para a cidade em busca de melhores oportunidades: \u201cvim para o Porto \u00e0 procura de uma vida melhor\u201d, relata uma moradora, \u201cpagavam muito mal aos meus pais e a mim no campo\u201d. Com superlota\u00e7\u00e3o e fracas condi\u00e7\u00f5es de salubridade &#8211; \u201cantes, na minha ilha, tinha duas casas cheias de pessoas, uma delas chegou a ter dez pessoas&#8221;<sup>1<\/sup> &#8211; este territ\u00f3rio continua a ser palco de manifesta\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais (Barbosa &amp; Lopes, 2021), com habita\u00e7\u00f5es ainda em superlota\u00e7\u00e3o, sem casa de banho, com poucas janelas e grandes infiltra\u00e7\u00f5es de \u00e1gua.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Este artigo parte de uma investiga\u00e7\u00e3o etnogr\u00e1fica realizada pela primeira autora, entre outubro de 2022 e outubro de 2024 no Bairro da Lomba, no Bonfim, Porto, e explora o impacto emocional, social e cultural das transforma\u00e7\u00f5es que est\u00e3o a ocorrer neste territ\u00f3rio, atrav\u00e9s de uma Investiga\u00e7\u00e3o-A\u00e7\u00e3o Participativa com os\/as seus habitantes. Reafirma-se que um Projeto s\u00f3 pode e deve ser constru\u00eddo se for feito com base na compreens\u00e3o profunda do territ\u00f3rio e das pessoas que nele habitam, se for desenhado e co-constru\u00eddo por e\/ou com essas pessoas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\"><\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading has-vollkorn-font-family\">1.1. \u201cSe vens por bem podes entrar\u201d: Contexto Hist\u00f3ricos das Ilhas no Porto e da Lomba<\/h1>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"902\" height=\"609\" src=\"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-749\" srcset=\"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image-1.jpeg 902w, https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image-1-300x203.jpeg 300w, https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image-1-768x519.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 902px) 100vw, 902px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Figura 1, O processo da requalifica\u00e7\u00e3o numa das ilhas na Lomba, fonte pr\u00f3pria, Francisca<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Weiner<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Segundo Caria (2003), a pesquisa etnogr\u00e1fica baseia-se no estudo da popula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de uma recolha de dados efetuada pessoalmente no local onde queremos atuar, analisando o quotidiano da popula\u00e7\u00e3o com proximidade. Tendo em considera\u00e7\u00e3o a riqueza do contexto em que foi efetuada a investiga\u00e7\u00e3o &#8211; a variedade de cren\u00e7as, valores e vis\u00f5es das pessoas que o habitam &#8211; procurou-se compreender a \u201cmultiplicidade de significados constru\u00eddos pelos atores, das suas a\u00e7\u00f5es e ainda das configura\u00e7\u00f5es do territ\u00f3rio\u201d (Tim\u00f3teo, 2014).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">\u201cEste mundo triste que qualquer um contempla \u00e9, por assim dizer, o princ\u00edpio da mis\u00e9ria. A gente que habita este bairro \u00e9 acolhedora, mas tr\u00e1s no rosto a dureza da vida. Muitas foram as gera\u00e7\u00f5es que viveram e nasceram neste espa\u00e7o colado \u00e0 margem do progresso\u201d (Voz da Lomba, 14 de fevereiro de 1988)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Este excerto, escrito pelos moradores no Jornal \u201cVoz da Lomba\u201d, ilustra a realidade de uma comunidade marginalizada, que assiste ao desenvolvimento e ao \u201cprogresso\u201d como se fosse um espectador. V\u00ea, admira, deseja, mas n\u00e3o faz parte. O advento do desenvolvimento n\u00e3o est\u00e1 ao seu alcance. O discurso sobre estes contextos arrasta as faltas e fragilidades das condi\u00e7\u00f5es estruturais destes espa\u00e7os sobre os seus habitantes, sinalizando-os como vulner\u00e1veis. \u201c\u00c0 margem da legalidade, esquecidas e negligenciadas\u201d (Coelho, 2020, p. 55), \u201cdesde sempre um problema\u201d (Fonseca, 2018, p. 11) ou o \u201cconfronto entre o limpo e o sujo\u201d (Seixas, 2008, p. 219), s\u00e3o exemplos de express\u00f5es utilizadas na literatura para caracterizar as Ilhas. Por\u00e9m, existe um distanciamento entre viver em situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade e ser-se vulner\u00e1vel; estes\/as habitantes s\u00e3o pessoas sobreviventes e resilientes, vulnerabilizadas pela opress\u00e3o estrutural. Por serem mais falados do que sujeitos de fala, prop\u00f4s-se, atrav\u00e9s de 400 horas de imers\u00e3o no territ\u00f3rio, compreender as perspetivas dos\/as habitantes da Lomba, incentivando-se a participa\u00e7\u00e3o dos\/as moradores\/as, s\u00f3cios\/as e dirigentes da AML em momentos de debate coletivo. Os \u201cMomentos Abertos na Lomba\u201d, que aconteceram semanalmente, ou est\u00edmulos mais espont\u00e2neos como os cartazes: \u201cO que \u00e9 a Lomba?\u201d s\u00e3o exemplos da interven\u00e7\u00e3o que foi feita no territ\u00f3rio &#8211; que aconteceu na AML e no espa\u00e7o p\u00fablico da Lomba.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\"><\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading has-vollkorn-font-family\">1.2. \u201cQuem cuida de uma figueira comer\u00e1 do seu fruto\u201d: a constru\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Moradores da Lomba<\/h1>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"902\" height=\"609\" src=\"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image-2.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-750\" srcset=\"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image-2.jpeg 902w, https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image-2-300x203.jpeg 300w, https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image-2-768x519.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 902px) 100vw, 902px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Figura 2, Vista de um pr\u00e9dio numa das ruas da Lomba, fonte pr\u00f3pria, Francisca Weiner<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Este territ\u00f3rio, valorizado por quem ali vive, \u00e9 um exemplo da criatividade e da arte do \u201cdesenrasque\u201d, da possibilidade de abrir espa\u00e7os comuns de partilha, que torna estas estruturas, casas. \u00c9 no terra\u00e7o, no p\u00e1tio, nos corredores, no lavadouro que as rela\u00e7\u00f5es de vizinhan\u00e7a se intensificam e que o sentido de comunidade se fortalece. Os espa\u00e7os comuns tornam-se espa\u00e7os de convivialidade e de mobiliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e pol\u00edtica, com um forte significado para os seus moradores\/as. Com um grande empurr\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o popular do p\u00f3s-25 de Abril, os\/as moradores\/as mobilizaram-se para responder \u00e0s necessidades urgentes do seu territ\u00f3rio, discutindo a falta de habita\u00e7\u00e3o digna e a aus\u00eancia de infraestruturas b\u00e1sicas, como casas de banho. Os encontros informais multiplicaram-se e passaram a encontros estrat\u00e9gicos, fundando-se, em 1977, a Associa\u00e7\u00e3o de Moradores da Lomba (AML).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">\u201cFoi para ajudar os moradores a terem um local para conseguirem tomar banho, as pessoas aqui n\u00e3o tinham onde tomar banho ou sequer saneamento em casa, os moradores tomavam banho no meio das ilhas com mangueira\u201d. (&#8220;Senhor Comunista&#8221;, morador da Lomba, 19.02.2022, AML)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Vivenciando o atual espa\u00e7o f\u00edsico da AML, torna-se claro que, apesar de ser atualmente conhecida como apenas um \u201ccaf\u00e9\u201d, este \u00e9 um espa\u00e7o vivo, com hist\u00f3ria, e de apoio \u00e0 popula\u00e7\u00e3o local: algumas pessoas ainda fazem ali a sua higiene. A\u00ed partilham-se acontecimentos, comentam-se not\u00edcias e procura-se ajuda, sempre numa atmosfera acolhedora. Os\/as moradores\/as mant\u00eam vivas in\u00fameras tradi\u00e7\u00f5es como a da Noite de Fados, do pres\u00e9pio de Natal, das cascatas sanjoaninas ou das rusgas de S. Jo\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Ao cartaz \u201cO que \u00e9 a Lomba?\u201d uma moradora respondia que \u201c\u00e9 a raiz da \u00e1rvore da minha vida\u201d, exaltando a import\u00e2ncia de ter uma base e uma rede de suporte para o come\u00e7o da sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">\u201cUm bairro pobre carregado de gente rica (esp\u00edrito)\u201d, escrevia o Sr. Guardi\u00e3o, enaltecendo o sentimento de comunidade e a disponibilidade das pessoas para ajudar a ultrapassar as dificuldades em conjunto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Contudo, o isolamento \u00e9 apontado como uma preocupa\u00e7\u00e3o: \u201ca Lomba \u00e9 uma zona fechada da nossa cidade adorada\u201d, dizia \u201cO faz tudo\u201d apontando o corte de financiamentos a projetos externos, como as col\u00f3nias balneares e o futsal. Importa, assim, que esta zona ganhe visibilidade para alertar a popula\u00e7\u00e3o das injusti\u00e7as que estas pessoas passam e dos despejos que est\u00e3o a ocorrer com a gentrifica\u00e7\u00e3o, as obras de requalifica\u00e7\u00e3o e o crescimento dos alojamentos locais, que quebram o sentimento de comunidade que, apesar de enfraquecido, ainda ali resiste.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\"><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-vollkorn-font-family\">1.3.&nbsp; A extin\u00e7\u00e3o de uma comunidade: Desafios Atuais da Gentrifica\u00e7\u00e3o &nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"902\" height=\"608\" src=\"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-748\" srcset=\"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image.jpeg 902w, https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image-300x202.jpeg 300w, https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image-768x518.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 902px) 100vw, 902px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Figura 3, Vis\u00e3o de uma Ilha vazia, fonte pr\u00f3pria, Francisca Weiner<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Hoje, a gentrifica\u00e7\u00e3o, a press\u00e3o imobili\u00e1ria e o interesse especulativo (Vinhas et al., 2024) &#8211; fen\u00f4meno particularmente intenso nos bairros populares &#8211; amea\u00e7am a identidade coletiva e o tecido social que caracteriza a Lomba.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">O edif\u00edcio desta coletividade destaca-se pelas suas cores vibrantes: verde, branco e amarelo, e o seu interior transporta para um recanto no meio da cidade. O ch\u00e3o, constru\u00eddo com a t\u00edpica cal\u00e7ada portuguesa, transporta para uma aldeia: um Porto antigo, ainda campestre, no meio da cidade. Ao entrar na Associa\u00e7\u00e3o \u00e9 como se entrar num museu vivo e com vida, com as pessoas que o habitam muitas vezes a dar uma pausa das rotinas quotidianas, ora num tempo que corre devagar, enquanto se toma caf\u00e9 ou simplesmente se est\u00e1 sentado a ver o dia passar. As paredes guardam fotografias antigas (das equipas de futsal, das col\u00f3nias balneares que realizavam no ver\u00e3o, da constru\u00e7\u00e3o da AML, dos in\u00fameros pr\u00e9mios desportivos e recreativos expostos na vitrine). (notas de terreno, Francisca Weiner, 13.01.2024)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">As mem\u00f3rias coletivas &#8211; tantas vezes encontradas nas Associa\u00e7\u00f5es de Moradores &#8211; s\u00e3o testemunhas das \u201cra\u00edzes\u201d e da hist\u00f3ria tra\u00e7ada por quem ali habita. Carregadas de subjetividades, apresentam-nos a intensidade, a solidariedade e a vida coletiva das pessoas que ali constru\u00edram hist\u00f3ria. \u201cNasci na Lomba, fui criado na Lomba, vivi na Lomba, casei na Lomba, s\u00f3 falta um cemit\u00e9rio, gostava de morrer aqui!\u201d, s\u00e3o a evid\u00eancia do orgulho do lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Agora em risco de extin\u00e7\u00e3o pela requalifica\u00e7\u00e3o em curso, a perda \u00e9 salientada: \u201cAntigamente \u00e9ramos como uma fam\u00edlia, agora restam poucos\u201d partilha o Mafioso. Como espa\u00e7os de perten\u00e7a e a\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, as Associa\u00e7\u00f5es de Moradores est\u00e3o carregadas de mem\u00f3rias desenhadas pelos\/as habitantes-moradores\/as, que as tornam espa\u00e7os semi-museol\u00f3gicos, que temos a responsabilidade de manter.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\"><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-vollkorn-font-family\">CONCLUS\u00c3O<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Alinhada \u00e0s ideias de Freire (1981), da import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e do protagonismo das comunidades para alcan\u00e7ar as transforma\u00e7\u00f5es sociais, esta investiga\u00e7\u00e3o procurou apresentar a Investiga\u00e7\u00e3o A\u00e7\u00e3o Participativa como forma poss\u00edvel de transformar o processo de requalifica\u00e7\u00e3o urbana num processo colaborativo e dial\u00f3gico, onde a participa\u00e7\u00e3o das comunidades se torna imperativa para o desenvolvimento comunit\u00e1rio. \u201cA Lomba \u00e9 a minha vida!\u201d \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de um territ\u00f3rio que n\u00e3o deve ser perdido para investimento econ\u00f3mico e especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Prop\u00f4s-se a compreens\u00e3o deste local atrav\u00e9s da IAP, agora falta a sua re-constru\u00e7\u00e3o conjunta, onde os habitantes possam ser colaboradores e participantes ativos no espa\u00e7o que \u00e9, principalmente, seu. As Associa\u00e7\u00f5es de Moradores, enquanto espa\u00e7os de a\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria, fortalecem a comunidade e preservam a identidade coletiva. Estas s\u00e3o importantes na luta contra a gentrifica\u00e7\u00e3o e na preserva\u00e7\u00e3o das redes comunit\u00e1rias e de identidade coletiva, podendo desempenhar um papel crucial e necess\u00e1rio na defesa do direito \u00e0 cidade. S\u00e3o um exemplo de espa\u00e7o de a\u00e7\u00e3o e cultura popular, de preserva\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o que podem ser aproveitadas como espa\u00e7os de ausculta\u00e7\u00e3o e express\u00e3o de novas formas de organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">O direito \u00e0 cidade que nos falou Lefebvre \u00e9 tamb\u00e9m o direito \u00e0(s) mem\u00f3ria(s) e o direito ao lugar: \u00e9 no processo de participa\u00e7\u00e3o e co-constru\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os que os seus moradores podem ser Cidade. Este direito est\u00e1 em risco quando as interven\u00e7\u00f5es e obras s\u00e3o feitas sem a inclus\u00e3o e a participa\u00e7\u00e3o dos\/as moradores\/as, que conhecem as ruas, os cheiros, os medos, os desejos, as vidas do lugar. Cidade e Cidadania s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es e, por isso, s\u00e3o historiciz\u00e1veis e mut\u00e1veis: como a democracia s\u00e3o pass\u00edveis de serem reconfiguradas e relegitimadas com uma re-distribui\u00e7\u00e3o de poder (Ranci\u00e8re, 2009). A dimens\u00e3o do relacional, sublinhada durante a nossa imers\u00e3o na Lomba, confere o movimento de cidade como algo co-constru\u00eddo, porque \u201c\u00e9 no bojo da interlocu\u00e7\u00e3o com o(s) outro(s) que se constroem continuamente as dire\u00e7\u00f5es (&#8230;) de uma sociedade\u201d (Castro, 2004, p.229).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\"><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-vollkorn-font-family\">REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Barbosa, I., &amp; Lopes, J. T. (2021). O que dizem os muros do Porto? Ensaio visual sobre o direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o e o direito \u00e0 cidade. In M. C. Silva, F. M. Rodrigues, J. T. Lopes, A. C.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Castro, L. (2004). A aventura urbana. Crian\u00e7as e jovens na cidade do Rio de Janeiro. 7 Letras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Coelho, Marta (2020). Caleidosc\u00f3pio Insular: Olhar a Ilha. Reposit\u00f3rio Aberto da Universidade do Porto. https:\/\/hdl.handle.net\/10216\/135873<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Freire, P. (1981). Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Fonseca, Joana (2018). Habitar (n)o Bonfim: din\u00e2micas comunit\u00e1rias e processo de projecto no Porto oriental. Reposit\u00f3rio Aberto da Universidade do Porto. https:\/\/hdl.handle.net\/10216\/117239<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Lefebvre, H. (2012). O direito \u00e0 cidade. Letra Livre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Lima, R. (2003). Desenvolvimento levantado do ch\u00e3o&#8230; com os p\u00e9s assentes na terra. Desenvolvimento local \u2013 Investiga\u00e7\u00e3o Participativa \u2013Anima\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria. FPCE-UP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Pereira, G. (1996). Casa e fam\u00edlia: As Ilhas no Porto em finais do s\u00e9culo XIX. Revista Popula\u00e7\u00e3o e Sociedade. Porto: Centro de Estudos da Popula\u00e7\u00e3o e Fam\u00edlia. N.o 2. p. 159- 183.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Ranci\u00e8re, J. (2009). Moments Politiques. Interventions 1977\u20132009 [Political Moments: Interventions 1977\u20132009]. Paris.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Seixas, Paulo (2008). Entre Manchester e Los Angeles: Ilhas e Novos Condom\u00ednios do Porto, Porto: Edi\u00e7\u00f5es Universidade Fernando Pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Tim\u00f3teo, I. (2014). A participa\u00e7\u00e3o nos projetos de interven\u00e7\u00e3o social e educativa como estrat\u00e9gia de capacita\u00e7\u00e3o e de mudan\u00e7a \u2013 representa\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas no territ\u00f3rio de Vila<\/p>\n\n\n\n<p>D\u2019Este. Disserta\u00e7\u00e3o de doutoramento, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto, Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Vinhas, A., Matos, F., Weiner, F., &amp; Costa, R. (2024). A dupla teimosia: dois projetos de investiga\u00e7\u00e3o-a\u00e7\u00e3o participativa em contextos de habita\u00e7\u00e3o popular. In H. Monteiro, I. Tim\u00f3teo, &amp; A. Bravo. Contra-Manual de Investiga\u00e7\u00e3o-A\u00e7\u00e3o Participativa (pp. 75-91). Alphabook.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\">Voz da Lomba. (1988, fevereiro 14). Voz da Lomba (Ano I, No. 3, S\u00e9rie III)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\"><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">BIOGRAFIAS<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\"><strong>Francisca Weiner<\/strong> (Porto, 2001) \u00e9 Educadora Social no \u00e2mbito de a\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o e da interven\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s das artes. Trabalha no Espa\u00e7o T como respons\u00e1vel do Projeto Terceira (C)Idade=Felicidade. Licenciada em Educa\u00e7\u00e3o Social, mestranda em Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o na FPCEUP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vollkorn-font-family\"><strong>Joana P. Cruz<\/strong> \u00e9 investigadora doutorada do CIIE\/FPCEUP (Centro de Investiga\u00e7\u00e3o e Interven\u00e7\u00e3o Educativas \/ Faculdade de Psicologia e Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o da Universidade do Porto), onde desenvolve investiga\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas da Participa\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica, Cidadania Ativa, Metodologias de Investiga\u00e7\u00e3o Participativas e Baseadas em Artes. \u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O desenvolvimento urbano \u00e9 muito mais do que a constru\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios e infraestruturas. \u00c9 um reflexo das estruturas sociais que moldam a sociedade, \u00e9 um espelho das pol\u00edticas p\u00fablicas, \u00e9 uma reprodu\u00e7\u00e3o de quem nela habita. Desde o final do s\u00e9culo XVIII, com a expans\u00e3o industrial em Portugal, testemunhou-se um crescimento dr\u00e1stico da popula\u00e7\u00e3o que vinha do interior para as cidades, resultando na constru\u00e7\u00e3o em massa de habita\u00e7\u00f5es conhecidas como &#8220;ilhas&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":113,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-747","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-associacao-de-moradores-da-lomba"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/747","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=747"}],"version-history":[{"count":21,"href":"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/747\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":943,"href":"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/747\/revisions\/943"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/113"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=747"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=747"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/abrilpopular.ese.ipp.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=747"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}